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Um novo desafio do ensino médico: começou a era da qualidade regulada

  • Foto do escritor: Carlos Longo
    Carlos Longo
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

O que o primeiro ciclo do ENAMED, a queda da relação candidato/vaga e o novo ciclo regulatório do MEC exigem — agora — de coordenadores de curso, pró-reitores, reitores e mantenedores


Por Carlos Longo*


Durante os últimos anos, o negócio da graduação em Medicina no Brasil obedeceu a uma lógica simples: Vagas autorizadas era o ativo mais valioso do setor, e a demanda absorvia qualquer oferta. Esse ciclo terminou. Os dados da Demografia Médica 2025 (FMUSP) e os resultados do primeiro ciclo do ENAMED, cruzados, descrevem um mercado que mudou de natureza: a competição deixou de ser por autorização e passou a ser por qualidade demonstrável — com consequências regulatórias, comerciais e reputacionais que atingem diretamente a estratégia das instituições.


Uma década que redesenhou o mercado


Entre 2004 e 2024, o país saltou de 143 para 448 escolas médicas e de 13.820 para 48.491 vagas anuais de graduação — média de 2.538 vagas novas por ano, com forte aceleração após a Lei do Mais Médicos (2013). Somente entre 2017 e 2024 foram criadas mais de 16,7 mil vagas, e em 2025 o sistema pode ultrapassar 490 escolas e 50 mil vagas anuais. A expansão foi capitaneada pelo setor privado, que responde por 79,3% das vagas e por 91,5% de todas as vagas abertas desde 2014, e ocorreu majoritariamente fora das capitais: a participação das capitais na oferta caiu de 51,2% para 34,8%, e municípios com menos de 300 mil habitantes já concentram 43,6% das vagas. O resultado assistencial é conhecido — o Brasil alcançou em 2023 a marca de um médico para cada 560 habitantes.


A matemática da demanda ficou desfavorável


Enquanto a oferta dobrava em menos de uma década, o número de candidatos permaneceu estável, em torno de um milhão por ano. A consequência aritmética: a relação candidato/vaga despencou de 46,51 em 2014 para 18,81 em 2023 — queda de quase 60%. E a média esconde o essencial. As instituições públicas mantêm 68,5 candidatos por vaga; as privadas operam com 7,17. Escolas com mais de vinte anos de existência atraem 30,22 candidatos por vaga; escolas com menos de dez anos, 11,67; cursos em municípios do interior com menos de 100 mil habitantes, 10,57.


Traduzindo para a linguagem do mercado: os cursos mais novos, mais interiorizados e sem marca consolidada — exatamente o perfil da maior parte da expansão recente — são os que captam com mais dificuldade, precificam com menos poder e dependem de estruturas comerciais que raramente acompanharam a sofisticação do investimento acadêmico. É nesse terreno que operam, com escala e precificação agressiva, os grandes grupos de capital aberto. A disputa por pouco menos de um milhão de candidatos entre mais de 400 cursos ativos deixou de ser abstrata.

 

Indicador

2014

2023/2024

Vagas anuais de graduação

23.505

48.491

Candidatos inscritos

1.064.424

961.793

Relação candidato/vaga

46,51

18,81

Escolas médicas em atividade

274

448

Fontes: Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP); e-MEC.


O ENAMED muda as regras do jogo


É sobre esse mercado quase saturado que incide o novo regime regulatório. O primeiro ciclo do ENAMED avaliou 351 cursos de Medicina — e 32,3% apresentaram desempenho insatisfatório (MS/SGTES, 2024). Diferentemente do ENADE, cujo efeito era essencialmente reputacional, o ENAMED nasce acoplado à nova política nacional de avaliação da educação superior e ao ciclo regulatório da SERES/MEC, com consequências concretas e escalonadas: regime de supervisão e acompanhamento formal, com visitas in loco e planos de melhoria com metas e prazos; suspensão cautelar de ampliação de vagas — que pode ocorrer sem processo administrativo prévio; redução compulsória do número de ingressantes, com impacto direto na receita; e, no limite, suspensão da emissão de diplomas. Um em cada três cursos avaliados já enfrenta algum nível dessas consequências. No horizonte próximo, discute-se ainda a vinculação entre o exame, o diploma e o registro profissional junto aos CRMs.


A combinação é inédita: pela primeira vez, desempenho acadêmico insuficiente destrói valor econômico de forma direta e rápida — reduzindo ingressantes de um curso cuja mensalidade sustenta o portfólio da instituição. E o inverso também vale: como as sanções redistribuem candidatos, o curso vizinho com ENAMED forte captura a demanda do concorrente restringido. Qualidade tornou-se, simultaneamente, o principal risco e o principal ativo competitivo do setor — e o estudante sabe disso: o ranking do ENAMED já entrou no processo de escolha antes de qualquer campanha.


Residência médica: o gargalo que abre uma janela


O segundo desequilíbrio estrutural está na ponta de saída. Em 2023, o país formou 32.611 médicos para 16.189 vagas de residência ofertadas no ano seguinte — praticamente dois formados por vaga, com tendência de piora à medida que as turmas da expansão se formam. Para as instituições, esse gargalo é uma agenda dupla. De um lado, a estratégia de preparar seus egressos para a residência pode tornar-se fator de atratividade da graduação: mais egressos qualificados para residência, pode significar mais competitividade no vestibular. De outro, a insuficiência de vagas de residências cria espaço legítimo para programas de especialização médica lato sensu de alta qualidade, antecipando-se a um cenário provável de valorização das provas de título. Porém aqui a alta qualidade e qualificação desses programas em articulação com as associações médicas será um divisor de águas pela qualidade na formação das especialidades médicas no Brasil.

 

A agenda de quem decide


O que fazer com esse diagnóstico depende da cadeira ocupada, mas a sequência é comum. O primeiro movimento é diagnosticar na sua IES o desempenho no ENAMED item a item, por série e por área de conteúdo — identificar as lacunas antes que o MEC as identifique. O segundo é revisar a governança do curso: NDE efetivamente ativo, coordenação com autoridade acadêmica real e processos avaliativos internos maduros (Avaliação para o conhecimento, OSCE, simulação realística); a experiência mostra que governança frágil é a raiz da maioria dos desempenhos baixos. O terceiro é reavaliar a estratégia de vagas: instituições bem avaliadas devem analisar expansão e novos campi justamente enquanto concorrentes estão em restrição — e, no caso das IES confessionais que ainda não possuem Medicina, o chamamento público do edital MEC 15/25 em aberto representa uma janela regulatória estratégica. O quarto é estruturar a estratégia de mentoria acadêmica logo na entrada do curso e avaliar capacidade de promover especializações médicas de alta qualidade, com parcerias hospitalares e associações médicas. O quinto é comunicar qualidade com método: ENADE, ENAMED, acreditação SAEME e parcerias internacionais precisam sair dos relatórios institucionais e entrar na narrativa comercial. O sexto, transversal, é levar o ENAMED à pauta permanente do conselho e da mantença — não como tema acadêmico, mas como variável central de risco e de valor.


Qualidade deixou de ser discurso


O setor viveu vinte anos em que crescer número de vagas era a estratégia. Os dados de 2024 e 2025 mostram que o crescimento desregulado chegou ao teto — pela demografia da demanda, pela régua regulatória e pela consolidação competitiva. As instituições que tratarem o ENAMED como um ENADE com outro nome descobrirão o custo dessa leitura na próxima portaria de redução de vagas. As que o tratarem como o novo sistema de valorização e sustentabilidade do mercado — investindo em governança acadêmica, avaliação contínua de aprendizagem e comunicação de qualidade — encontrarão o momento mais favorável para crescimento sustentável. Em um mercado de mais de 400 cursos e um milhão de candidatos, a qualidade tornou-se a única vantagem competitiva que a concorrência não consegue precificar.

_____________

*Carlos Longo é sócio-fundador da SABRE — Inovação e Gestão de Crescimento Sustentável de IES — e vice-presidente da ABED. Ocupou posições de liderança C-Level e de Reitoria em instituições como FGV, Ibmec, HSM, Laureate e Universidade Positivo, tendo sido Reitor da Universidade Católica de Brasília. Contato: carlos.longo@sabreducacao.com.br


Fontes: Demografia Médica no Brasil 2025 (FMUSP/e-MEC); Ministério da Saúde/SGTES (2024); MEC/SERES; APM/FMUSP (2025); SABRE/EducaInsights.

 

 
 
 

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